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Um mais um, de Jojo Moyes

  • 31 de dez. de 2016
  • 6 min de leitura

Uma das grandes sensações de leitura dos últimos tempos foi a Jojo Moyes, principalmente depois que seu romance “Como eu era antes de você” se tornou um sucesso de bilheteria, aumentando inclusive consideravelmente a venda de lencinhos de papel no cinema, devido aos litros de lágrimas choradas no escurinho. Mas eu sou dessas que vicia quando lê uma coisa boa e sempre procura ler mais do mesmo autor. Foi assim que encontrei “Um mais um”, um livro doce, leve, engraçado e romântico, e ao mesmo tempo uma homenagem às mulheres que lutam pela sobrevivência de seus filhos com unhas e dentes.

Breve sinopse: Jess é uma daquelas pessoas invisíveis: ela é aquela faxineira que limpa o seu banheiro enquanto você não está lá. Mas Jess é além disso a mãe solteira de duas crianças especiais: uma menina gênio em matemática e um adolescente emo cuja única interação com outros estudantes é quando apanha deles na escola. Abandonada pelo marido, que nunca ajudou financeiramente com nada, Jess é uma pessoa orientada pela moral e senso de responsabilidade, que tenta a todo custo passar para os filhos. Ela trabalha de dia como faxineira e num bar à noite para sustentar a família. Um dia, sua filha recebe uma chance única de estudar numa escola de elite que garantirá seu futuro, mas apesar da bolsa de estudos precisa pagar a matrícula da filha, e ela não vê a menor possibilidade de conseguir o dinheiro para matricular a menina. Até que ao ajudar um cliente rico - bêbado - a ir para casa, percebe que ele deixa cair um maço gordo de dinheiro. Lutando contra a própria moral, ela se apodera do dinheiro e tenta pagar a matrícula. Só que por uma daquelas brincadeiras do destino, o cliente acaba se aproximando de Jess e de sua família e ela se vê mais uma vez dividida entre manter-se fiel aos seus princípios morais ou viver uma história de amor.

As dez coisas que mais gostei no livro

1) Eu sei que quando você leu a sinopse pensou que se tratava de um daqueles livros com nome de mulher (Júlia, Bárbara, sei lá quantos daqueles se vendia em bancas de revista). Sim, o fio condutor da história é brega e receita antiga. E exatamente isso faz do livro algo tão especial, acho inclusive que é a receita base de Jojo Moyes. Ou vai me dizer que “Como eu era antes de você” traz alguma novidade naquela velha história de “eu me apaixonei por alguém mesmo sabendo que ele vai morrer”. “Um mais um” traz, sim, um roteiro breganejo – mas é escrito de forma encantadora, e confesso que li as 508 páginas em um dia e meio. E quando acabei de ler me controlei muito para não ler outra vez, porque amei.

2 É um livro de férias, um entretenimento, uma história que vai deixar os seus dias mais doces, vai fazer o efeito de uma barra de chocolates ou um filme de sessão da tarde. Não vai mudar o seu jeito de encarar a vida, não vai ensinar nenhuma grande lição. Mas justamente por não querer te convencer de nada é que o livro vai te surpreender. Porque é tão simples que é bom.

3) Jess é uma daquelas mulheres fortes que a gente conhece por aí, aos montes. Mulheres que não tem folga, nunca. Que endureceram justamente por ter um coração mole. Que acordam de madrugada para cuidar da casa e dos filhos antes de trabalhar duro o dia inteiro e a noite inteira, para começar tudo de novo no próximo dia. Que dá amor em doses cavalares aos filhos mas que ao mesmo tempo os ensinou a serem independentes, para poder sobreviver à sua rotina dura de trabalho e a uma sociedade onde o mais fraco apanha de todos os lados. Jess é uma guerreira, não uma coitadinha. Ela não espera que a vida mude, não espera milagres, não pede ajuda. Ela vai buscar o que quer, descontrói a palavra impossível e vai adiante.

4) Aliás, é isso que a autora faz com a gente. O livro é uma terapia para mulheres, que se enxergam ali dentro em suas batalhas diárias. Mais ou menos o que “O diário de Bridget Jones” fez com a mulherada solteira de trinta anos, esse livro é um retrato das mulheres entre 30 e 45 anos, mães divorciadas ou solteiras. Mesmo que você não tenha dois empregos, não more numa espécie de favela, não seja faxineira. Mas você vai se ver em Jess. E vai ter orgulho dos seus próprios superpoderes.

5) Ed Nicholls é o “príncipe” desse conto de fadas. Ele é o cara rico que perde o dinheiro do qual Jess se apodera e por quem ela depois se apaixona. Mas o primeiro sentimento entre os dois é antipatia mútua. Ed era um nerd que poderia estrelar o vídeo daquela música “o nerd de hoje é o cara rico de amanha”. Ficou tão rico que resolveu comprar o passado, e se envolveu com uma das garotas superpopulares da época de escola, o que acabou lhe trazendo uma grande dor de cabeça jurídica e culminando na sua falência. Por isso ele é um “príncipe” diferente: ele se envolve com Jess e sua família não por ser legal, mas por que precisava de uma desculpa para fugir do caos jurídico em que se encontra e principalmente para não ter que encontrar o pai em seu leito de morte. Ele é um fraco, enquanto Jess é a forte da história. Mas como Yin e Yang, essas duas forças contrárias vão se fundindo e complementando. Os dois vão se misturando a ponto de trocarem de papel. Em certo momento da história, é ele quem cuida dela, que age feito uma insana, bebendo e se machucando ao quebrar o carro do ex-marido. E isso culmina num dos trechos mais delicados e poéticos do livro, quando ele a banha numa banheira, lavando seus cabelos.

6) Uma personagem muito bem elaborada é o adolescente Nicky. Sua história já começa triste: ele é filho do ex-marido de Jess e foi abandonado pela mãe, depois também pelo pai, que o deixa com Jess. Nicky é emo, gótico, ou coisa parecida. Usa maquiagem, pinta as unhas e se veste de preto, por isso apanha da vizinhança e dos colegas na escola. Amei o jeito que a autora o descreveu e principalmente como o aproximou de Ed, que de certa forma teve um passado parecido: por ser nerd, também era alguém sem turma. Ed fez com que Nicky aprendesse a procurar sua tribo, e o incentiva a escrever um blog – que vira um sucesso, e traz a Nicky a alegria de pertencer a algum lugar. Adorei esse caminho encontrado pela autora, que mostra o uso das redes sociais e mídia de forma construtiva, em vez de usar da fórmula “adolescentes + midia = fracasso social”. Ele simplesmente acha sua tribo, faz as pazes com o seu passado ao reencontrar o pai e segue adiante.

7) O livro se desenvolve praticamente durante a viagem de carro para a escócia, onde Tanzie participará da olimpíada de matemática. É durante a viagem de carro que Ed conhece melhor Jess e sua família. Apesar da relutância em aceitar ajuda de Ed, durante a viagem a família tem uma experiência lúdica, a primeira depois de tantas dificuldades. Amei a forma que a autora mostra que quase sempre a felicidade está em coisas simples, como estar juntos, fazer um passeio de carro com as crianças. As vezes lutamos tanto que esquecemos que muitos prazeres da vida não custam dinheiro algum.

8) Adorei o fato de Jojo Moyes ter escolhido como personagem principal uma mulher comum, pobre, maltratada pela vida. Ela não é uma supermodelo, ela não tem uma beleza tao sobrenatural que arrasta todos os homens para a cama, e nem conquista Ed à primeira vista. Jess precisa de dinheiro, seus filhos sofrem bullying, seu ex-marido não ajuda financeiramente nem moralmente os filhos. Gostei do fato da autora ter colocado problemas reais na vida dos personagens, como o fato do cachorro vomitar no carro e a diarreia que derruba Ed durante a viagem. Impossível não se identificar com os personagens.

9) O enredo é bom, apesar de enfraquecer durante a narrativa – em determinado momento chegamos a pensar que o problema de Jess ter ficado com o dinheiro nem será mais mencionado, já que ela esquece o assunto ao se apaixonar e ele não tem como descobrir porque o dinheiro não lhe fez falta. Mas depois desse down a história retoma seu curso, quando todos pagam pelos seus pecados e podem ser absolvidos pela vida. Aí as personagens voltam para o seu papel: ela, a mulher que trabalha sem falta e que paga, centavo por centavo, todo o dinheiro de volta. Ele, que perde tudo o que tinha e tem que recomeçar do zero numa nova empresa. Moral da história: não, ele não será o mocinho rico que a salvará, mas os dois lutarão juntos por uma vida melhor.

10) Como disse, o livro é um punhadinho de açúcar, um sorvete de chocolate com cobertura de chantili, para refrescar o seu verão. Eu gostei muito, e no último ponto da minha lista vou falar do meu personagem favorito: o cachorro. Amei o cachorro da história, grandão, meio inútil, preguiçoso, mas que no fim da narrativa se sacrifica para salvar a filha de Jess, que é agredida pelos valentões do bairro. O cachorro é um verdadeiro herói, e coloca uma cereja por cima do chantili da história. Afinal, que história de uma família pode ser uma história boa sem um cachorro ?


 
 
 

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