A Filha Perdida, Elena Ferrante
- 23 de dez. de 2016
- 5 min de leitura

Breve sinopse: "Lançado originalmente em 2006, o terceiro romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de meia-idade, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida — e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém."
Antes que leiam as dez coisas que amei nesse livro, saiba que como todo livro de qualidade, terminei a leitura com mais perguntas que respostas. Jogo para vocês as perguntas que me fiz , mas não acredito que eu ou você tenhamos essas respostas. Mas se gostam de desafios, aqui vão dez.
1) Quantas mulheres podem existir dentro de uma? Quantas facetas carregamos no decorrer da vida? Quem presta atenção, além de nós, nas várias mulheres que precisamos esquecer para personificar a única que interessa – a mãe – quando os filhos vêm? Se você tem uma visão idílica da maternidade, saiba que Elena Ferrante desnuda de forma cruel essa persona que vira sem que percebamos nossa segunda pele, e que é, queira você ou não, é socialmente forjada em nós.
2) O que acontece em nossa alma e na nossa mente quando nossas meninas viram moças? Que sentimentos a migração de olhares - do nosso corpo de mulher, até então desejado, para o corpo das filhas que cresceram – despertam? É inocente achar que conseguimos ser indiferentes à essa dança de cadeiras. É inevitável se questionar se é a hora de se retirar da dança. A consciência de que a fase do desejo – do desejo do outro por nós - está para acabar, dói. Ou se não dói, incomoda. Elena Ferrante toca no percebido, mas pouco falado: o exato momento em que a mulher percebe as filhas roubam o seu poder de atração.
3) A relação atribulada entre mãe e filhas é a temática do livro. Elena toca na ferida de maneira dura, crua, de um jeito que não vemos retratados em livros, mas sentimos a todo tempo, seja pela relação conflituosa com nossas mães, seja com a futura tormenta que nos aguarda com nossas filhas. Quem são aquelas estranhas que hoje mantém uma relação nervosa com quem as criou? O que aconteceu com os corpos macios que, quando pequenas, embalávamos em nossos braços, e beijávamos como se fossem nossa própria vida? Como pode essa relação que prometia ser perfeita, mostrar-se por vezes tão atribulada e incômoda? Essa é a dor que senti ao ler o livro: que não estou imune - e ninguém está – de se separar no futuro daquela que tanto amo, e por quem daria a vida. Em que momento essa relação é partida, e o que podemos fazer para impedir que ela se parta?
4) Para algo ser considerado imperfeito, ele precisa de um ponto de referência do que é perfeição. Para a protagonista, o ponto de referência surge em um dia de sol, na praia. A fixação de Leda está em uma jovem mãe que desperta nela sentimentos contrastantes , algo que ela não sabe decifrar, mas é intensamente, incomodamente seu. A estranha tem uma relação harmônica com sua filha; sem ansiedade, sem nervosismo, sem o fantasma da dúvida. Ela deseja a filha e sua filha a deseja de volta. Para quem rumina uma relação hoje distante, a fixação faz sentido, dói e até mesmo justifica o injustificável.
5) E então, o ato que não encontra explicação: o roubo da boneca que a criança da praia amava mais que tudo. A boneca que a criança fazia de filha, que zelava como uma boa mãe . O que Leda poderia querer com a boneca? O que era a boneca, senão o símbolo do cuidado, a própria testemunha da maternidade tranquila? Uma maternidade sonhada mas nunca atingida? Não queria analisar o livro por que acho que todos fazemos nossas leituras com o que nos mexe por dentro, mas essa eu vou deixar escapar: para mim, Leda quis ter a chance de tomar o que é perfeito e destroçá-lo, para ver se então, fragmentado, ele continuaria a existir em sua imperfeição. (Qual foi a sua opinião?)
6) O quanto caímos em direção ao passado quando encenamos a maternidade? Quem é essa que nos marca a ferro, a responsável pelos nossos genes e trejeitos, pelos sentimentos contraditórios? Quem é essa que personifica o arquétipo da mãe, e poderia explicar por que nunca atingimos o ideal materno? O que aconteceu entre nós e nossas mães é lindo, é odioso, e de tantas maneiras, perfeito e imperfeito. Quem se coloca no lugar do outro e enxerga, nos silêncios desconsiderados, todas as oportunidades perdidas, o cansaço físico que amplia a tensão, da pouca ou mesmo rara oportunidade de se por à prova, de dar vazão ao desejo que temos quando somos jovens, do quanto temos que abrir mão? Sinto, ao escrever essa resenha, que sou só perguntas, e nenhuma resposta.
7) E então nos deparamos em nossa trajetória materna, assim como Leda, com as encenações sociais da mãe-boa. A mãe-boa tem trejeitos irritantes. É superficial em sua animação, é exageradamente autoconsciente. Essas mães vêm acompanhadas de frase como “não me canso de brincar com eles,” ou “tem coisa melhor?” quando você está se sentindo um lixo. O que ela sabe das horas em que passamos chorando nos cantos, nos culpando por sermos tão más? Onde tanto erramos, que as mães boas nunca erram, pensamos?
8) Aliás, ainda sobre as mães boas: quem são essas mulheres tão à vontade em sua roupagem de mãe que parecem ter tido suas medidas tiradas pelos anjos do céu? Que acentuam nossos fracassos e frustrações, que nos fazem sentir mal em uma roupa em que todas parecem se ajustar bem. Que mãe consegue esquecer o fato de que a maternidade é vendida em tamanho único, na cor rosa, e devoluções são socialmente mal vistas? Para quem são essas críticas todas, senão para nós?
9) Amei, principalmente, o fato de ter fechado o livro e chorado. Simplesmente chorado. Mas também de ter enxugado as lágrimas e ter tido um dia melhor com a minha filha, por culpa, precaução ou puro amor.
Escancarar as cavernas da alma faz isso: traz luz para o que antes morava no escuro. Depois da leitura, era a hora de deixar a luz e a claridade entrarem, e sacudir as crenças engessadas ou empoeiradas. De fazer uma auto-análise, e entender que relações são complexas mesmo. Filhos exigem sacrifício e propiciam redenção, na mesma intensidade e frequência. O que a vida exige (e dispensa o mi-mi-mi) é responsabilidade sobre nossos atos e consequências pelas nossas ações. Sem negociação.
10) Para aqueles que lerem e odiarem o livro, convido-os a manterem o livro por perto. Não o doem, não o vendam, nem o emprestem. Sugiram que suas amigas o leiam, e eventualmente discutam sobre o assunto. Mal não vai fazer, embora não exista resposta que traga uma conclusão ou a paz para o "estrago" causado. Somos mães. Somos bruxas e fadas, precisamos aceitar ambos os papeis. Assopramos machucados e gritamos com nossas crias na hora errada. Estapeamos nossa alma por erros cometidos e acariciamos os rostinhos miúdos que nos procuram querendo afago. As vezes, fazemos o contrário. Mas nenhuma resposta vai dar conta da charada de Ferrante: quem é a mulher por trás da mãe? De que enorme tesouro ela abriu mão para ser recompensada com a maternidade?
A Filha Perdida, Elena Ferrante
Intrínseca
175 páginas
isbn: 978-85-510-0032-8

















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