Middlesex, Jeffrey Eugenides
- 5 de nov. de 2016
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Breve sinopse: Narrado por uma personagem hermafrodita, o segundo romance de Jeffrey Eugenides, autor de As virgens suicidas, é um épico intergeracional e intersexual. Vencedor do Pulitzer em 2003, Middlesex está a cada dia mais atual. "Nasci duas vezes: primeiro como uma bebezinha, em janeiro de 1960, num dia notável pela ausência de poluição no ar de Detroit; e de novo como um menino adolescente, numa sala de emergências nas proximidades de Petoskey, Michigan, em agosto de 1974."

Ironicamente, Calíope Stephanides está morando em Berlim, cidade que por décadas se viu dividida, quando começa a relembrar sua própria história, marcada pelo desvio e pela busca de unidade. Sua narrativa é um épico que percorre três gerações da família greco-americana Stephanides, tendo como ponto de partida o começo do século XX, quando seus avós deixam um vilarejo nas encostas do Monte Olimpo para se instalar em Detroit, nos Estados Unidos.
Para entender o que a tornou tão diferente das outras meninas, Calíope precisa investigar segredos de família e a espantosa história de uma mutação genética que atravessa as décadas e a transformará em Cal, um dos mais audaciosos narradores da ficção contemporânea. Sofisticado, recheado de referências literárias e ao mesmo tempo envolvente, Middlesex é uma reinvenção do épico americano, que alia as tradicionais sagas familiares à mais virtuosa narrativa pós-moderna. Um romance intergeracional e intersexual, vencedor do Pulitzer em 2003.
Este é o primeiro livro que leio de Eugenides e é deslumbrantemente bem escrito. As palavras se desenrolam de forma tão natural e fluida que te consomem página após página.
As dez coisas que amei em Middlesex:
1.A sofisticação com que foi escrito. A mistura de artifícios de narrativa pós-moderna e saga da família à moda antiga. É um épico americano moderno. Cal, ou Calíope, é o narrador onipresente desta epopéia, que vai e volta com liberdade por quase cinquenta anos de história em que a sua família está inserida. Fatos como a Grande Depressão, Lei Seca e a Segunda Guerra Mundial são narrados com riqueza de detalhes.
2.O romance parece composto de duas metades distintas e ocasionalmente em conflito: uma parte tem a ver com a condição de Callie, e como ela vem a descobrir quem ela "realmente" é; a outra, muito mais colorida do que a história do de Callie é a história de como ela veio a ser assim - a história de por quê esta criança veio a herdar o gene extremamente raro e fatal que acaba por definir a sua vida indefinível.
3.O título Middlesex é o nome da casa em que vivem, mas também sugere multi-gênero. É um livro de opostos reconciliados: América e Ásia Menor, masculino e feminino, clássico e contemporâneo. É incrivelmente rico, muito bem escrito e eriçada de metáforas.
4.O choque entre duas culturas tão distintas faz parte da dualidade da narrativa. Tanto a cultura cotidiana grega, tais como a religião e a culinária se mesclam a detalhes, digamos, mais intelectuais como mitologia, literatura e da história.
5.A mudança de sexo de Stephanides não é tratada de forma mítica (como Tirésias) ou fantasiosa (como Orlando, de Virginia Wolf). É uma persona realista com dúvidas, aspirações, desejos. Cal tem uma necessidade atroz de compreender o seu destino peculiar a ponto de quebrar os laços do ego, a fim de descobrir por que tal coisa lhe aconteceu.
6.Desde o início Cal amplia seu foco e o estende tanto às singularidades dos personagens secundários quanto aos acontecimentos maiores, recurso que anula o aspecto autocentrado da voz em primeira pessoa do singular.
7.Se o tema do incesto prende a sua atenção, não é tanto porque ele é a chave para a herança genética de Callie, mas sim por causa da maneira excepcionalmente discreta com que o autor lida com ele. As páginas de abertura do livro de Eugenides, com a sua descrição dos jovens Desdêmona e Esquerdinha e suas vidas claustrofóbicas em uma pequena aldeia da Anatólia no início de 1920, é tão ternamente processado que faz este estranho amor parece natural.
8.Amei as personagens nomeadas como Um Sete Um, irmão mais velho de Cal ou Objeto Obscuro, menina pela qual Calíope se sente atraída sem entender o porquê. A relação, eventualmente, leva Cal a descobrir sua verdadeira identidade, e irá conduzi-lo a um caminho totalmente novo.
9.A luta interior da Cal é atraente, mas também o são as dificuldades daqueles ao seu redor. Eugenides merece ser elogiado por seu dom de tornar personagens (hermafroditas, imigrantes, minorias raciais e étnicas) que a sociedade trata como "outro" e nos fazer ver-nos neles. Afinal identidade é algo pelo qual todo mundo luta. Middlesex nos permite saber que não estamos sozinhos.
10.Mas apesar do drama que é a vida de Cal/Calíope o livro termina com uma espécie de esperança que brota da percepção de Cal que nós, seres humanos, podemos nos acostumar com qualquer coisa, se lhe dermos uma chance.
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
ISBN: 8535924957
Número de páginas: 576

















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