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O Vendedor de Passados, José Eduardo Agualusa

  • 10 de dez. de 2016
  • 5 min de leitura

A resenha de hoje é sobre “O Vendedor de Passados,” de José Eduardo Agualusa.

Esse livro ganha merecidamente o título de O melhor livro do ano para mim. Simplesmente não consegui devorar o livro – veja só - por puro medo que ele acabasse! Ele me sugou de tal forma que me vi em Angola, sentindo calor, procurando passados. O livro é uma compilação de palavras bonitas e precisas, e emana aquele cheiro de realismo fantástico tão familiar na literatura sul americana. Fica aqui a tentativa de fazer justiça ao livro com minhas próprias palavras, e a mais pura vontade de dizer para quem se dispuser a ouvir que achei esse livro garipando por aí e é isso mesmo que ele é: UMA PEPITA DE OURO.

Breve sinopse: “Nesse romance Agualusa conta a história de Félix Ventura, especialista em um estranho ofício: vender passados falsos. De acordo com Seus clientes, prósperos empresários, politicos e generais, têm o futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix se especializa em fabricar memórias incríveis, cria honradas genealogias, passados felizes, com direito a fotografias e detalhes íntimos dos ilustres ancestrais. A vida corre-lhe bem. Entretanto, numa noite em sua casa em Luanda, Félix recebe a visita de um misterioso estrangeiro a procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem-humorada, à atual sociedade angolana, ''O vendedor de passados'' é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e seus equívocos.”

P.s: O livro ganhou o prêmio Independent de ficção estrangeira e também inspirou o filme de Lula Buarque de Holanda de mesmo nome.

Aqui vão as dez Coisas que Amei nesse livro:

1. A premissa é tentadora: quem vende passado? Quem o compra? A gente sabe que as perguntas iniciais que um livro levanta precisam ser respondidas ao final, e assim categorizamos um livro como satisfatório ou não. Nesse ponto, O Vendedor de Passados é um livro extraordinário. Ele entrega mais do que promete. Beeeeeem mais.

2. O livro é narrado por diversos personagens, e um deles me chamou especial atenção. Demorei bastante a entender quem ele era, mas depois que me soltei das amarras do concreto, foi um prazer ver o livro a partir de seus olhos.

2. Agualusa é um escritor fabuloso. Suas descrições são reais, suas palavras têm textura, suas metáforas acertam na mosca. Quer um exemplo?

“A casa vive. Respira. Ouço-a toda noite a suspirar. As largas paredes de adobe e madeira estão sempre frescas, mesmo quando, em pleno meio-dia, o sol silencia os pássaros, açoita as árvores, derrete o asfalto.”

E o que ele faz com o tema da memória é indescritível. O que é real e imaginado em nossa vida? O quanto confabulamos (e damos como certo) o que achamos ser nosso? Qual a importância do passado, ao final das contas?

3. Quando um estrangeiro chega na casa de Félix Ventura e pede um passado, começamos a entender o que Félix faz. A descrição do estrangeiro é muito interessante, e mostra o domínio que o autor tem das palavras:

"Não consegui pelo sotaque adivinhar-lhe a origem. O homem falava docemente, com uma soma de pronúncias diversas, uma sutil aspereza eslava, temperada pelo suave mel do português do Brasil.”

Sabemos pouco sobre o homem, mas sentimos saber muito. Agualusa não explica demais, e nossa mente faz todo o trabalho de preencher as lacunas para dar ao livro o que melhor nos agrada.

4. As reflexões sobre quem somos, e o passado que carregamos são bárbaras. Por exemplo, em algum momento ele escreve

“um nome pode ser uma condenação; alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas de um rio após as grandes chuvas, e, por mais que este resista, impõem-lhe um destino. Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, iludem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum. Recordo sem prazer, e sem dor também, o meu nome humano. Não lhe sinto a falta. não era eu.”

6. O passado evoca curiosidade, mesmo quando não é real. O estrangeiro, cujo passado é presenteado, quer saber quem foi sua mãe. Quer saber quem foi seu pai , e o que eles andaram fazendo, e à medida que ele vai se interessando pelo passado fictício, esse passado se torna real. Tão real que o homem parte em busca das pessoas que nunca conheceu. Tão real que reencontra gente que queria ver e nunca viu. Como se elas pudessem surgir pelo simples fato dele acreditar nisso. E surgem.

7. Olha como o autor explica a mudança do estrangeiro ao comprar uma genealogia para si:

“Algo da mesma natureza poderosa das metamorfoses vem operando no seu íntimo. É talvez como nas crisálidas, o secreto alvoroço das enzimas dissolvendo órgãos. Podem argumentar que todos estamos em constante mutação. Sim, também eu não sou o mesmo de ontem. A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável; está sempre lá, belo o terrível, e lá ficará para sempre.”

8. O único a se lembrar ou demonstrar apreço pelo passado é o mais improvável dos narradores. Mesmo assim, seu passado é distante, inexato e por vezes sonhado. Ele não se lembra de quem foi, e ao mesmo tempo parece saber com mais propriedade sobre sua história que o passado fictício de todos os outros. O tema passado, memórias, realidade x sonho é tão bem bolado e tão bem executado no livro que decidi não arquiva-lo ainda na estante: preciso rele-lo.

9. Félix vê seus arranjos de passado como uma forma avançada de literatura. E ele está certo, não? Ele cria enredos, inventa personagens, mas em vez de os deixar presos dentro do livro, ele os lança à vida e presenteia-os à realidade.

Em determinadas partes do livro somos questionados como preenchemos com a própria imaginação as lacunas que surgem do encontro entre dois humanos. O que é providenciar um passado senão preencher uma lacuna? Preenchemos silêncios com nossas ideias, preenchemos espaços entre frases de livros (exatamente o que os deixa tão bons) e é preenchendo que formamos nossos universos. Também preenchemos nosso próprio passado com memórias falsas e novas reflexões. Criamos sentidos, ressignificamos o velho. Ai de nós se pegarmos nosso crush conversando com outra pessoa; preenchemos aquela conversa que não ouvimos com falas e palavras doloridas; inventamos teorias para cada movimento de boca ou palavra faltante da conversa. E é nesse preenchimento de lacunas que a história acontece. É nessas entrelinhas, nos espaços em branco, nas margens que sabemos mais sobre Lúcia, Félix, o estrangeiro e o ex-agente (ou ex-gente). É assim, correndo o olho pelas páginas distraídos que entendemos o tema e a mensagem do livro.

10. Em determinado momento, o autor menciona que a realidade é dolorosa e imperfeita. Contudo, a verdade também costuma ser ambígua. Afinal, se fosse perfeita não seria humana, não é mesmo?

Enfim, esse foi um livro escrito com frases perfeitas, e que trouxe nas entrelinhas (enquanto distraidamente nos levava pelos olhos ) sua verdadeira mensagem. Se usasse chapéu, eu o tiraria para Agualusa. Ele virou o meu crush literário.

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