O Ancião que Saiu pela Janela e Desapareceu, Jonas Jonasson
- 17 de dez. de 2016
- 6 min de leitura

Um livro envolvente, cheio de aventura, engraçado e de reviravoltas inesperadas. Senta que lá vem história, e quem nos conta é alguém que sempre esteve por acaso no lugar certo (ou errado) no momento exato em que a história estava prestes a acontecer. Ou a ser escrita, muitas vezes por causa dele.
“O ancião que saiu pela janela e desapareceu” é o primeiro livro do autor sueco Jonas Jonasson, e é um grande sucesso europeu com mais de 4,5 milhões de exemplares vendidos em 35 países. O livro foi publicado em 2009, em 2014 transformado em filme pela Buena Vista, com o título em portugues de Portugal “O centenário que saiu pela janela e desapareceu”.
BREVE SINOPSE: Allan Karlsson foge do asilo pela janela, minutos antes da sua festa de aniversário de 100 anos. A passos curtos e vagarosos, chega na rodoviária e decide tomar o primeiro ônibus para qualquer lugar que as poucas moedas que traz consigo possam levá-lo. Na rodoviária, por acaso acaba roubando uma mala com uma quantia inimaginável de dinheiro ilegal da máfia sueca. Começa aí a aventura do centenário, que é perseguido pela máfia e consegue fugir com a ajuda de pessoas que vai conhecendo e a quem vai se aliando no caminho, primeiro pela promessa da divisão do dinheiro, depois por simpatia. Paralelamente, vamos conhecendo a vida de Allan nos primeiros cem anos de sua existência, rica em encontros com os maiores líderes da época e em aventuras, como o fato de ter sido envolvido contra sua vontade nas maiores guerras e acontecimentos políticos do século XX, entretanto sem se deixar tocar por quaisquer ideologias.
Dez coisas que amei nesse livro:
1) A primeira coisa que amei nesse livro foi o fator supresa - os acontecimentos são tão inesperados que não há rastro de monotonia na narração. E as coisas absurdas que vão acontecendo pelo caminho, a começar pelo fato dele roubar a mala, aliar-se a improváveis comparsas (entre tantos uma mulher que tem um elefante de estimação que leva consigo na fuga). Outros fatos incríveis? Ele se mete sem querer na guerra civil espanhola e salva (por acidente) a vida do general Franco - que vira um grande amigo, vive e faz acontecer momentos históricos junto a personalidades como Joseph Stalin, Mao Tsé-Tung, Winston Churchill e Richard Nixon.
2) O livro é uma delicia, e vem com uma promoção. Compre um livo e leve dois – paralelamente à história atual ele nos conta como foi a sua vida, os capítulos vão se intercalando, de forma irregular (às vezes lemos 5 capítulos atuais e depois seguem três do passado, outras vezes são de dois em dois), e o passado é narrado cronologicamente até chegarmos ao ano de 2005, quando as duas histórias se encontram. Isso traz ao livro um movimento constante, pois tanto a história de vida de Allan como a atual aventura com a mala da máfia sueca são fantásticas.
3) As dores no joelho, o soninho da tarde e uma queda para uma (duas ou mais) cachacinhas antes, durante e depois das refeições dão a Allan a fragilidade necessária para que o leitor se prenda ainda mais à narração e se preocupe com esse velhinho sem juízo que escapa – como sempre por sorte ou acidente – dos maiores perigos na atualidade, já que ele e seus novos amigos estão sendo perseguidos por bandidos profissionais da máfia. Essa casualidade, essa inocência ou sorte dão um tempero especial à história. Exemplo? Quando lá pelas tantas na história o Big Boss da máfia finalmente encontra o velhinho, a mala e seus amigos e está com o dedo no gatilho para acabar com todos, Allan faz um sinal para o elefante (!) que está atrás do bandido, que executa um dos truques ensinados por ele durante a fuga (sentar), livrando todos definitiva e inesperadamente do perigo.
4) Quem gostou de Forrest Gump vai amar esse livro, pois tanto Forrest quanto Allan tem em comum o fato de serem personalidades com handycap (em um a perna, em outro a idade, e ambos a ignorância). A diferença é que
Allan não acredita em nenhuma ideologia, e se envolve nas maiores questões por não ter nada melhor para fazer no momento ou devido ao seu grande talento: explodir pontes. Sua aversão a ideologias começa com a fuga de seu pai para a Rússia, com o objetivo de participar da revolução de 1917. Isso faz com que Allan simplesmente abomine qualquer alusão política, o que justamente o faz ser o centro de diversos acontecimentos políticos e históricos (como a invenção da bomba atômica).
5) O livro é pura ironia. A ideia de que os acontecimentos históricos e políticos mais marcantes do século XX pudessem ter sido oriundos de trapalhadas e pileques depois de conversas regadas à álcool nos faz por um lado temer a humanidade um pouquinho mais, por outro lado nos dá a visão de que qualquer um de nós está em condição de fazer história, desde que tivesse um pouco mais de audacidade. Ou de azar, de acordo com o ponto de vista.
6) O livro é um achado porque traz vários gêneros em si: é ao mesmo tempo ficção histórica, comédia, aventura e crime, mas tudo regado a muito humor. Como na festa de 100 anos de Allan estariam presentes no asilo o prefeito e autoridades locais, além da imprensa (nada acontecia naquela cidade), o seu sumiço virou um grande evento policial e mediático, porque a polícia primeiramente acreditou que ele havia sido sequestrado. A investigação é outro achado por si. Trapalhadas, pistas e interpretações falsas e por fim o autor nos mostra um lado da polícia sueca de incompetência inimaginável, com paralelos quase familiares para o hemisfério sul.
7) Os diálogos são outra coisa que amei. Principalmente entre Allan e Julius, o primeiro aliado que fez durante a fuga. Julius tem 70 anos, algumas passagens pela polícia e vê tudo com a mesma naturalidade que Allan. Assim, as passagens dos dois são enxutas e diretas, e por isso mesmo uma comédia. Exemplo?
“O jovem deve ter pressentido que Allan estava lá porque, justo
quando o velho mirava para bater, ele soltou Julius Jonsson e deu
meia-volta.
A tábua o acertou bem no meio da testa, e ele ficou olhando,
por meio segundo, antes de cair de costas e bater com a cabeça no
canto da mesa da cozinha.
Nada de sangue, nem gemido, nada. Ele só ficou estendido lá,
agora com os olhos fechados.
— Bom trabalho — elogiou Julius.
— Obrigado — respondeu Allan. — Onde está aquela sobremesa
que você prometeu?”
8) O livro também é um brinde às pessoas simples e seus destinos maravilhosos. Um exemplo é a esposa do meio irmão de Einstein (outra boa história do livro), que por anos a fio é o melhor amigo de Allan. Ele e seu amigo conheceram Amanda num bar na Indonésia, durante as férias de 15 anos que passou por lá (outra ótima história do livro). Amanda é garçonete, mas não por muito tempo, pois não consegue nem gravar o nome das bebidas. Seu amigo se apaixona pela moça e acabam se casando. Ela não é inteligente mas é esperta, e vai de cambalacho em cambalacho crescendo na Indonésia, até comprar o posto de maior autoridade local. Apesar das corrupções, simpatizamos com Amanda pelo seu bom coração e por tudo que havia sofrido na vida pela sua “burrice”.
9) Aliás, o livro questiona de forma natural vários conceitos preestabelecidos, desconstruindo “acidentalmente” os padrões: Allan, sem nenhuma ideologia política, participa da história do lado que bem o convém no momento – capitalistas, socialistas, fascistas…. nada disso importa realmente. Durante a fuga, algumas pessoas são assassinadas “sem querer”, e não chegamos a considerar isso como um crime. A corrupção na Indonésia nos soa familiar e quase inevitável…. Enfim, o livro não veio trazer uma moral. As coisas vão acontecendo e o olhar neutro e quase inocente de Allan nos livra de qualquer julgamento.
10) Acho que nunca foi tao difícil para mim escrever sobre um livro, simplesmente porque nesse livro acontece muita coisa e tudo é leve e profundo ao mesmo tempo, com muito humor. Mas acho que posso encerrar a lista das coisas que mais gostei com o fato que o fator surpresa continua até o fim: no livro há um passado, um presente e depois até um futuro, o que necessariamente não se espera quando se lê um livro sobre alguém que está fazendo 100 anos de vida. Eu tiro o chapéu muitas vezes para o autor, pois as quase 400 páginas do livro não trazem só 100 anos de história, mas celebram a simplicidade da vida, pois como já disse alguém, a vida é aquilo que acontece enquanto estamos ocupados planejando o que fazer dela.
Jonasson, J.
Editora: RECORD
Ano: 2013
ISBN: 8501091979
Nº de Páginas: 364

















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