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Formas de voltar para casa, Alejandro Zambra

  • 22 de out. de 2016
  • 4 min de leitura

É a primeira vez que leio algo de Alejandro Zambra, e seu livro me lembrou um daqueles perfumes franceses ultra caros, de frascos rebuscados e pequenos, que custam uma fortuna mas valem cada gota mágica. Sabe o tipo? O que penetra fundo na pele e flutua ao redor por dias, perfumando tudo que você encosta?

Formas de Voltar para Casa é um caderninho de 157 páginas, com capítulos espaçados, tão pequeno quanto denso. Sim, muito denso.

Vou tentar escrever, em dez tópicos, a viagem que foi ler essa história, e tentar fazer você se interessar por esse escritor chileno fabuloso que parece ter um mapinha do labirinto que nos leva de volta aos anos de infância.

As dez coisas que amei em Formas de Voltar para Casa:

1) As palavras de Alejando são poucas, mas precisas. Amo livros assim, em que se diz tanto em tão pouco espaço. Por exemplo, voltamos com ele ao ano de 1985, quando um terremoto sacudiu o Chile: “Se havia algo a aprender [com o terremoto] não aprendemos. Agora penso que é bom perder a confiança no solo [...]. Depois da frase, sabia que tinha algo bom nas mãos.

2) O processo de perdas, encontros e reencontros, descrito com poucas e precisas palavras, me fez marcar o livro inteirinho. Foi bem assim mesmo: o livro me marcou, e eu marquei ele. No início marcava passagens que achava legal, depois passei a marcar momentos que me transportaram de volta à infância. Como você pode ver na foto, colei um marcador quadrado em cada ponto-máquina-do-tempo, e logo o livro mais parecia a skyline de uma cidade grande.

3. O autor sai em “caminhadas para se cansar” pelas ruas de seu bairro, registrando paisagens bem ao estilo de como eu mesma costumava fazer de bicicleta na minha. Alejandro mostra o Chile da época de Pinochet, um tempo que, embora com toques de recolher e estado de sítio, passava a sensação de que viver era possível "ignorando, por arrogância ou inocência (e um pouco dos dois), o perigo".

4. O autor traz para o presente a criança que foi em uma época politicamente conturbada. Em como as crianças eram (são) deixadas de lado durante as conversas, encontrando explicações próprias para esse grande jogo de faz de contas perigoso de gente que surgia e desaparecia.

5 A nostalgia é muito presente no livro inteiro. "Para onde se olhe, há gente renovando os votos com o passado", recordando canções que nunca nos agradaram, voltando a ver primeiras namoradas, colegas de curso pelo qual não tínhamos simpatia, saudando gente que repudiávamos." É mais do que se sentir nostálgico, é querer ser nostálgico. Em tempos de grupos do Whastapp onde desenterramos todo tipo de gente que achávamos estar no passado, aquilo me pôs para pensar. Gostamos de ter/sentir nostalgia, mas por nós, não por quem ou o que trazemos de anos passados.

6. O autor é um escritor tentando achar sua voz como escritor, e as frases que encontrei durante a leitura ressoaram em mim:

Escrever te faz bem, te protege”

“Me protege de que?”

“As palavras te protegem.”

”Os personagens ficam juntos por toda a vida?”

”Não, não poderia ser assim, nunca é assim – nunca é assim nos romances bons, mas nos ruins tudo é possível...”

“Ninguém fala pelos outros. Mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história. “

7. No livro há uma passagem que fala sobre propósito (ou foi assim que entendi). Depois dos anos de ditadura, vieram os Anos 90, o tempo das perguntas. O autor queria saber dos pais os detalhes, e obrigava-os a recordar, e repetia depois essas lembranças como se fossem próprias; “de uma forma terrível e secreta, procurava seu lugar naquela história.”

“Não perguntávamos para saber, [...] perguntávamos para poder encher um vazio.” Essa passagem me levou a pensar se não há algo como excesso de propósito, assim como há falta dela. Por exemplo, na guerra, o povo se une e se mobiliza em defesa de algo grande e caro ( a pátria, a liberdade) mas depois que ela termina, fica esse imenso buraco existencial difícil de ser preenchido, e quanto maior foi o espaço que o propósito ocupou, maior o buraco.

8. O livro deixa no ar aquela sensação de que voltei à minha infância no Chile. Coisa estranha, já que não nasci lá. Mas eu sinto que estive, e que conheço a criança que Alejandro foi. Dessa criança eu me sinto estranhamente perto.

9. Zambra se questiona, e nos faz questionar, se a vida não é de certa forma um passeio pelo parque, todos procurando uma paisagem própria, um parque novo. Uma vida para se recuperar o passado - ou se recuperar no passado - para continuar andando.

10. E a mais linda frase (que nem é dele, e sim de Tim O´Brien) sobre as lembranças, “O que adere à memória são esses pequenos fragmentos que não tem princípio nem fim,” me fez voltar ao pensamento que tive antes, o daquele frasco de perfume caro e pequeno. O que fica da infância são essas lembranças disformes de um tempo que não vai mais voltar, mas deixou seu perfume. Ainda sentimos o cheiro dele por aí, e continuamos a andar procurando onde podemos ter acesso novamente à essa essência.

Recomendo.

Editora: COSAC NAIFY

Ano: 2014

ISBN: 8540506041

Nº de Páginas: 160

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