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Os Traídos, Ursula Poznanski (tradução livre)

  • 11 de set. de 2016
  • 5 min de leitura

Trilogia de Eleria

Pensa numa pessoa que detesta ficção científica. Multiplica por vinte. Essa era eu até ler o livro “Os traídos” de Ursula Poznanski, que na verdade é uma trilogia, que segue com “Os conjurados” e “Os dizimados”, conhecida informalmente como Trilogia de Eleria. Essa autora austríaca me conquistou com essa distopia-thriller-ficcção científica que te prende do começo ao fim. Editoras, tragam essa trilogia logo para o Brasil!

Breve sinopse: No ano de sei lá quando, num futuro distante, não existe mais a vida no planeta terra do jeito que conhecemos, depois de uma catástrofe natural que dizimou a humanidade. A vida civilizada só é possível dentro de esferas, idealizadas por um homem que criou um sistema perfeito que protege e abastece os cidadãos, que têm a sua disposição conforto e tecnologia. Eleria, conhecida como Ria, é querida, privelegiada e na ponta da elite intelectual de sua esfera: ela é a sétima melhor aluna e seu namorado, Aureljo, é o número 1 e cotado para ser o futuro presidente. Mas, por acidente, Ria acaba escutando que há uma trama da cúpula da esfera para dizimá-los, junto a outros cinco estudantes, sob a acusação de traição. Eles conseguem fugir e tem de sobreviver fora das esferas, caindo nas maãs do povo primitivo, os “Prims”. Eles descobrem que foram enganados pelo sistema e lutam pela sua sobrevivência e para evitar uma grande catástrofe.

10 coisas que amei no livro

1-A vida dentro das esferas é um paraíso. O ambiente é o de um mundo ideal, onde a tecnologia e o trabalho tornaram possível a vida após o “fim do mundo”. Todos os habitantes têm direito à educação, ao bem estar e à saúde (são controlados por pulseiras médicas que consultam e aconselham por tempo integral). O trabalho e o estudo os levam adiante, para o topo. Ao ler o livro, a gente até torce um pouco para o mundo acabar e a gente ter a chance de viver num mundo assim, muito bom para ser verdade. Mas uma coisa permaneceu igual: o caráter do ser humano, que (re)conhecemos com o desenrolar da obra quando os estudantes descobrem a traição que sofreram e muitas outras mentiras a respeito do sistema em que cresceram.

2-Os personagens principais são Ria e Aureljo, e eu tive de voltar muitas vezes a leitura para confirmar mesmo se eles tem 18 anos. No sistema, os jovens de 18 anos não perdem tempo com joguinhos (Pokemon what?) ou passatempos. Eles estudam, aprendem línguas estrangeiras, trabalham, discutem filosofia…. Eles também namoram, fazem sexo, tem relacionamentos…. Mas isso fica em segundo plano. Achei muito interessante a atmosfera que a autora criou para a idade dos personagens, Todos parecem mais velhos dentro das esferas. No começo achamos que seria devido à seleção genética na hora de sua “fabricação”, que privilegia somente os melhores dos melhores genes. Depois nos convencemos de que a vida depois do fim do mundo endurece as pessoas, e Ria e Aureljo são assim, endurecidos e artificiais como soldados.

3-A leitura dessa trilogia faz pensar sobre a forma com que aceitamos ou rejeitamos as situações sociais e políticas (principalmente as politicas) que escrevem nossa história. Me faz pensar na forma em que muitos povos são usados como marionetes de interesses de peixes grandes, que não medem esforços para conquistar o que querem. Em como muitas vezes imaginamos defender o certo ou rejeitar o errado. Aliás, o certo e o errado acabam ficando bem relativos depois dessa leitura. E é impossível não olhar à nossa volta e para as decisões politicas que nos cercam sem desconfiar…. será que somos nós quem tomamos as decisões ou somos guiados a tomá-las? E pior: qual é a verdadeira intenção dos políticos com suas atitudes?

4-Amei a forma como a autora vai descortinando a verdade, que vamos descobrindo pouco a pouco junto com Ria, que se vê inesperadamente diante de um mundo exterior autossustentável e diverso, completamente diferente do que lhe ensinam a vida toda. Os habitantes das esferas acreditavam que os poucos sobreviventes externos -que resistiam a viver dentro das esferas - eram ignorantes, bárbaros e inimigos natos. Experimentamos com Ria que a verdade está bem longe de suas convicções. E ela vai se sentindo tola, endurecida e artificial, exatamente do jeito que a julgamos ao iniciar a leitura.

5-Uma das coisas que achei mais chocantes e fantástica no livro é o fato de nenhum morador das esferas ter pai e mãe. Quase todos foram concebidos artificialmente em laboratório e alguns foram abandonados pelos Prims nas portas das esferas. Com o desenrolar da história vemos que essa é mais uma mentira, e que na verdade os Prim não são os sem coração que abandonam os filhos…. A verdade vou deixar para vocês ficarem sabendo ao ler o livro, senão roubo de vocês mais um motivo para odiar as esferas.

6-A visualização de um futuro cheio de tecnologia mas sem passado (tudo dizimado com a catástrofe) também é superinteressante. Quase chorei a ver o amor de Ria aos poucos livros físicos na esfera. Eles pararam de ser produzidos para economizar papel nas esferas (poucos recursos naturais). E quase chorei de novo quando, fora das esferas e escondidos na cidade embaixo da cidade ela descobre uma biblioteca inteira! Emocionante.

7. Aliás, a artificialidade das esferas chega até a ser engraçada. Fora da esfera uma das estudantes tem uma discussão com um dos Prims sobre o cultivo da terra. Ela acha que ele quer enganá-la quando diz usar adubo para melhorar o plantio. Quem usaria dejeto biológico para potencializar o plantio? Muito engraçado! A sabedoria das coisas simples.

8-Os Prims, como os habitantes das esferas chamam os habitantes exteriores, são um show à parte. Eles se “viraram nos trinta” para sobreviver depois de uma catástrofe, e é muito legal o jeito que a autora mostra a volta por cima que deram, reinventando a roda, por assim dizer, usando os recursos naturais para sobreviver: plantando, caçando, lutando. São bárbaros, sim, mas são movidos pelo mesmo princípio que os moradores das esferas: sobreviver. Será que faríamos diferente, se a sobrevivência de nosso grupo dependesse da morte do outro grupo?

9-Eu amei tudo nessa trilogia, difícil resumir em só 10 coisas. Os personagens nos conquistam pouco a pouco, embarcamos junto com eles nessa aventura e nos sentimos traídos também. A autora deu um show. Aliás, no Brasil ela só é conhecida por uma obra também fantástica, O Jogo da Morte. A trilogia de Eleria infelizmente ainda não tem tradução no Brasil. Olha aí, editoras, estão dando bobeira!

10-O que eu mais gostei no livro todo é que apesar de todo o desespero, das intrigas, das catástrofes, das traições, ainda há uma esperança de que o ser humano usará daquilo que tem de melhor e poderá virar o jogo. Claro que isso vai custar a vida de alguns corajosos, que poderão ser endeusados ou ridicularizados pelos que virão. Mas que dá um alívio saber que eles existem, isso dá!

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