Zonas Úmidas, Charlotte Roche
- 25 de ago. de 2016
- 4 min de leitura
Breve sinopse: "Helen Memel tem 18 anos e hábitos no mínimo escatológicos. Usa os aromas vaginais como perfume em gotas atrás das orelhas, cultiva caroços de abacate que gosta de introduzir na vagina e sente imenso prazer em sentar nos vasos sanitários públicos quando estão bem sujos. Ela também nos confessa, sem qualquer sombra de pudor, que tem enorme orgulho de suas hemorróidas com aspecto de couve-flor..."

Prepare-se para a leitura e respire fundo, mas saiba de uma ou outra coisa antes de abrir o livro (que tal dez coisas?)
1. A primeira coisa a falar sobre o livro é que já sabia sobre o que ele trata. Fui preparada, e sinceramente, saber do que se trata Zonas Úmidas é recomendável.
2. Sobre ama-lo ou odia-lo: Na minha humilde opinião, é bom que entendamos o que acontece à nossa volta para detestá-lo. Mulheres são condicionadas desde novinhas a esconder, rejeitar e se enojar com tudo que se relacione a seus fluidos. Imaginar que soltamos gosma ali por baixo é motivo de se entupir de carefrees com o único propósito nos livrar ( já que Deus não nos livrou) dos terríveis 'escorrimentos,' tão temidos por mães e avós (e amigas, e namorados, e enfim maridos). Após essa breve reflexão sobre esse nojo herdado, aí sim você pode e tem todo o direito a odiar o livro. Embora, se vc (re)conhece essa repressão sutil e eterna que as mulheres passam, talvez não odiará o livro. (Mas isso não traz qualquer garantia: esse é daqueles livros ame-o ou odeie-o)
3. Em terceiro, a história só desceu porque a personagem era uma adolescente recém chegada a vida adulta. Muitos dos pensamentos de Hellen não combinariam com a vida adulta, e a concatenação das ideias e justificativas seriam fracas se ela não fosse jovem (não tenho certeza se essa era a intenção da autora ou mero acidente...)
4. Amei que as nojeiras de Hellen foram equilibradas por outro tipo de maluquice, a higiene extrema. Em algum momento Roche chama a assepsia atual em que vivemos de supersticiosa, e quer saber? É verdade. Hoje em dia achamos que tudo que é natural é sujo, e tudo que é artificial, asséptico. Olhe ao redor e pense sobre suas noções de higiene: muito do que fazemos não tem respaldo científico ( ps: não estou falando aqui sobre sentar sobre o tampo da privada de banheiros públicos, ok? Rsrsrs) mas sim de , por exemplo, lavar as frutas para livra-las de agrotóxicos. Lavo as frutas pra não ter digital de feirante e curiosos, mas livrar de pesticida? Não faz qqr sentido.
5. As provocações do livro nunca param, como se não existissem provocações suficientes: Hellen acaba de conhecer um Etíope e tcha-raaaam, faz aquilo que 0% da população feminina faria naquela situação. Quem faria aquilo? Só Hellen.
6. Adorei ver a sociedade alemã retratada nesse livro (a autora é alemã). Morei quase dois anos na Alemanha e sim, me espantei com muitos dos hábitos de higiene deles. Tinha uma professora, por exemplo, que nunca tomava banho e dizia que sabonetes faziam mal à pele. Ela não fedia nem cheirava (brincadeiras à parte) e parecia sempre Ok. Anos depois descobri que muitos por aí tomam banho com bicarbonato de sódio, outros só com água, e que higiene ( e suas variações e gradações) é um conceito cultural e curiosamente, pessoal e altamente transferível.
7. Em sétimo , eu gosto de livros que, excedendo para o bizarro, trazem questões pertinentes sobre nossa "normalidade". As distopias funcionam muito assim: colorindo exageradamente um cenário, nos damos contas das cores do nosso mundo. Depois de ler zonas úmidas passei a questionar o nojo insensato que passamos adiante sobre nosso próprio corpo e como os homens são bem menos exigidos nessa área (ou vai dizer que descrever um homem todo brilhoso de suor, cujo odor é másculo e viril tem o mesmo peso e a mesma medida que descrever a moça toda suada, com odor feminino...)?
8. Fica, ao final da leitura, aquele questionamento sobre como o outro te vê. Como o outro encara sua intimidade? Do que ele gosta em você ( e de que maneira crescemos achando que precisamos agradar, seja superhigienizando, depilando, clareando, aumentando, diminuindo o que é verdadeiramente, naturalmente nosso?)
9. Quase por fim, fica aqui minha sincera admiração por um livro desses ter vindo no século XXI exatamente pela boca de uma mulher, porque ele, o livro, coloca em perspectiva uma série de coisas. Por exemplo, com que entonação, e sob que ótica, um homem falaria sobre as mesmas coisas? Homens arrotam alto, coçam o saco, e quase nunca são encarados como abomináveis. Poderíamos, como mulheres, fazer as mesmas coisas? E ter o direito é o mesmo que ser "ok"?
10.Charlotte, só senti falta de meleca. Não aquela durinha, que a Hellen tira no box do banheiro e come. Estou falando da mole, fluida como tudo que o título do livro e os gostos escatológicos de Hellen adoram (e, eu sei, os alemães têm pavor). Nojo é mesmo cultural, não?
Autora: Charlotte Roche
Editora: Ponto de Leitura
Ano: 2008
Páginas: 237

















Comentários